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O retrô como repertório

No último ano, desenvolvi a monografia para conclusão do meu curso de graduação em Design, com o tema “estilo retrô”: uma linguagem visual que, apesar de fazer menção a marcas do passado, é moderna e tem seu uso recorrente em diversas áreas do design hoje em dia, do design gráfico a interiores, da moda ao cinema. E essa pesquisa já está me ajudando aqui na agência, afinal é mais interessante produzir quando temos ainda mais repertório.

A ideia do trabalho foi traçar um comparativo entre dois lugares em São Paulo que usam o retrô para compor seus ambientes. Por isso, tive de escolher uma década para estudar, seria impossível estudar o design de várias décadas em um pouco menos de um ano! Após pesquisar um pouco, acabei escolhendo estudar o design dos anos 1950 (isso porque foi um período em que o Brasil e São Paulo passaram por diversas mudanças políticas e culturais, uma década bem interessante para ser estudada, fica a dica).

Fiz um estudo de campo no salão de beleza Retrô Hair e na primeira unidade da Lanchonete da Cidade, estabelecimentos que “imitam” a estética dos anos 50 em seus interiores. Para quem se interessar, vale a pena dar uma olhada no trabalho da Carla Caffé, arquiteta e designer que liderou o projeto da Lanchonete da Cidade e entende muito de retrô.

Retrô Hair

Retrô Hair

Lanconhete da Cidade (unidade Jardins)

Lanconhete da Cidade (unidade Jardins)

Posso dizer que o retrô se destaca por ser um estilo visual que usa da tecnologia do presente para construir peças com a estética do passado, o que deixa claro ser uma peça atual.

Sobre os anos 1950, o Brasil passava por uma mudança em seu cenário político, com JK no comando de nosso País, as portas para a economia liberal são abertas, começamos a olhar muito principalmente para a cultura norte-americana, aí surgem influências do Tio Sam desde música, cinema ao design e arquitetura.

O “American Way Of Life” invade a mente de todos brasileiros. No design gráfico vemos muitas cores vivas, tipografias gestuais e ilustrações de famílias consumistas felizes (principalmente no âmbito da propaganda, já que o design passou a ser um grande aliado da publicidade nessa época).

Tudo isso porque os EUA viviam um momento de consumo em massa, todo mundo com muita grana, então tudo lembrava velocidade, dinamismo. As formas orgânicas e aerodinâmicas, chamadas de streamlining, e os anúncios e produtos destacados unicamente por sua beleza estética (styling) dominavam o cenário visual norte-americano e migrou para o cenário brasileiro.

Anúncio da Mercury, dos anos 1950, percebe-se as cores vivas nos carros, a tipografia gestual nas chamadas, além do streamlining que compõe a forma dos carros em si.

Anúncio da Mercury, dos anos 1950, percebe-se as cores vivas nos carros, a tipografia gestual nas chamadas, além do streamlining que compõe a forma dos carros em si.

Na arquitetura e mobília, as novas junções de materias (estofado e ferro, por exemplo), e as curvas na arquitetura, as sancas de gesso nos tetos, os pilares cilíndricos sustentando construções, formando a arquitetura moderna aqui no Brasil.

Poltrona desenhada pelo designer Eero Saarinen, mobília típica dos anos 50, a união entre materiais, e a forma orgânica no encosto se destacam.

Poltrona desenhada pelo designer Eero Saarinen, mobília típica dos anos 50, a união entre materiais, e a forma orgânica no encosto se destacam.

O mais interessante é que além da influência do design norte-americano, o Brasil tentava ainda construir sua identidade, descobrir a chamada “brasilidade” que vinha sendo discutida desde a Semana da Arte Moderna em 1922. E os artistas plásticos e alguns arquitetos se inclinavam para a arte concreta, que se baseava em formas geométricas, composições calculistas, organizadas, em alguns sentidos indo contra os preceitos do design estadunidense. Esses dois estilos, apesar de atuarem em ocasiões diferentes, meio que se contradizem, e atuaram no Brasil na mesma época. Não disse que a década de 1950 é intrigante?

Obra de Luiz Sacilotto, artista brasileiro concretista, nessa pintura percebemos uma composição extremamente matemática.

Obra de Luiz Sacilotto, artista brasileiro concretista, nessa pintura percebemos uma composição extremamente matemática.

Após pesquisar bastante sobre o tema, e conversar com a Carla Caffé, cheguei à conclusão que o retrô remete a conforto, a aconchego. Mesmo que você não tenha vivido os anos 50 ou outra década passada (eu, por exemplo, infelizmente nasci muito depois de 1950), em algum momento você viu em filmes ou fotografias, leu alguma coisa sobre a época e criou um imaginário na sua cabeça, ou seja, você conhece isso, sabe que isso aconteceu. Naturalmente quando você está em um ambiente retrô, tem um sentimento de algo conhecido, não tem um espanto, um estranhamento, que o contemporâneo e o futuro às vezes causam.

E isso é muito legal, imaginar que um bom designer/arquiteto/decorador pode, com seus conhecimentos sobre esse tema, criar algo que transmita conforto a seu público, ajudando um pouco no dia a dia desse mundo tão conturbado e acelerado que vivemos.

Essa pegada retrô às vezes é usada em projetos comemorativos aqui na Cadaris, as marcas e empresas gostam de ver sua história, sua tradição, transmitidas em imagens. Nada como uma boa aplicação de tipografia retrô, fotos e imagens com filtros que dão a sensação de ser algo antigo, para dar esse sentimento “nostálgico”.

Complemento

Retrô: estilo visual que se baseia em marcas visuais de um determinado período do passado, mas é produzido com a tecnologia do presente. Estudiosos dizem que o retrô começou a ser usado nos anos 1960, remetendo a estilos visuais do final do século XIX.

Arte Concreta: movimento artístico que surgiu no começo do século XX na Europa e se sustentava na arte não figurativa, ou seja, não representava seres humanos e paisagens, se estabelecia apenas em formas geométricas, contraste de cores, uma arte puramente matemática e calculista.

Design norte-americano dos anos 1950: os EUA, após o triunfo na Segunda Guerra Mundial, se viam em um cenário econômico altamente favorável, principalmente as camadas médias da sociedade, e isso, aliado com os avanços na indústria e tecnologia, fez com que as empresas e marcas (dos setores eletrodoméstico e automobilístico por exemplo) acirrassem a concorrência, e então começaram a usar o design como diferencial, puramente como estratégia de marketing, esse movimento foi chamado de styling. Muitos produtos apresentavam formas orgânicas, através de materiais moldáveis, remetendo a foguetes e aeronaves. Essa forma “aerodinâmica” é chamada de streamlining.

Anúncio de um aspirador dos anos 1950, a mulher, que passa a ter um poder aquisitivo maior nessa época, é o público alvo desse anúncio, além do streamlining presente na forma do aspirador.

Anúncio de um aspirador dos anos 1950, a mulher, que passa a ter um poder aquisitivo maior nessa época, é o público alvo desse anúncio, além do streamlining presente na forma do aspirador.

Por Guilherme Cohen